sexta-feira, julho 15, 2011

Capítulo 3


A noite depois da morte da Kelly não foi nada interessante. Foi totalmente desgastante, e enervou-me tanto que eu ia partindo a casa inteira. Não seria boa ideia, visto que os meus pais chegariam no dia seguinte. É claro que o vampirão (nome que eu dei ao meu criador visto eu achar o nome dele uma piroseira) veio cá a casa. Eu estava num estado maravilhoso. Os meus cabelos pareciam um ninho de ratos. Os meus olhos estavam inchados de tanto chorar. Eu chorei sangue. Isso não era maravilhoso porque apanhei um grande susto. Pensava que também ia morrer ali. Ele olhou para mim e riu-se. Sim, como se a ultima coisa que eu precisasse fosse que alguém se risse de mim. A única coisa boa que ele fez foi enterrá-la. Ela merecia isso. Era a minha Kelly. Fui buscar umas flores ao quintal do vizinho. Ele não ia dar por falta das flores. Claro que ela merecia melhor, mas eu não me conseguia mexer mais do que aquilo. A minha vontade era ligar ao Duke, o meu namorado, mas eu nem isso conseguia fazer. Neste momento, a conversa do “Eu sou vampira e isto assim não pode resultar” teria de ficar para depois. Para muito depois. Para meu espanto, o vampirão disse um poema enquanto estava a enterrar a Kelly. Pois. Era o mínimo que ele podia fazer depois de se rir da minha cara. Era muito bonito. E fez-me chorar. De novo. E assustou-me.. De novo. Se eu não me habituasse àquilo, eu ia dar-me muito mal..
Depois de a enterrarmos, fui ver se conseguia um aspecto mais bonito antes de voltar a enfrentar o publico mundial. Depois, quando voltei á sala, ele estava sentado no MEU sofá, como se estivesse em casa. Mas isso não importou. Porque a culpa da Kelly ter sido morta, era DELE. Eu não disse nada, porque não tinha força para dizer nada. O ódio que eu tinha ao perceber que a culpa era dele, por me ter transformado nisto, fazia com que eu me sentisse como se estivesse numa camisa-de-forças. Não me podia mexer. Estava impedida de fazer seja o que for. Naquele momento. Depois, eu não iria ficar quieta. Simplesmente, não iria. Sentei-me ao lado dele e ele não disse nada. Eu também nada disse. Eu apenas ia ficar ali sentada, a olhar para nenhures, até me sentir capaz de fazer alguma coisa por mim. Para meu espanto, ele chegou-se para perto de mim e abraçou-me. Eu comecei a chorar. Não era justo. Simplesmente não era justo ser a Kelly a pagar por tudo. Não era. A camisa branca dele já estava cheia de manchas vermelhas. E parecia ser cara, portanto para mais, tinha de ir comprar-lhe uma camisa nova.. 
Como se os problemas não pudessem parar de chegar, o telemóvel tocou.
Ele afastou-se para que eu pudesse levantar-me para ir atender. Levantei-me e procurei com o olhar o meu telemóvel. Por sorte, ele estava em cima da cómoda da sala, onde eu o tinha posto antes de Kelly sair pela porta. Lembrei-me disso e tremi. Atendi o telemóvel, sem olhar.
- Querida! Há tanto tempo que não te vejo!
- Duke?
- Claro. Quem mais te poderia chamar de querida?
A Kelly, pensei.
- Duke, agora não é o momento indicado para conversarmos.
- Já não te vejo há uma semana. Já não falo contigo há semana e meia. E agora não é o momento indicado? Quando será então? Daqui a um mês?
- A Kelly acabou de morrer. Eu acabei de a enterrar. Faz-me um favor e cala-te essa boca tagarela, antes que eu me passe da cabeça e dê cabo de ti.
E desliguei-lhe o telemóvel na cara. Eu não estava com paciência para isto. Não tinha cabeça para dramas de namorados agora. Voltei ao sofá e olhei fixamente para a parede. Eu sabia que o vampirão estava a olhar para mim. Mas eu neste momento ainda estava menos capaz de enfrentar o olhar de alguém do que antes.

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